Custos e resultado

Como formar o preço do frete e não trabalhar de graça

Custo por km é o piso, não o preço. O que entra depois: retorno vazio, tempo parado, risco da carga e a margem que sustenta a empresa.

Equipe Rodus··4 min de leitura

Tem uma armadilha na formação de preço de frete que pega gente experiente: usar o custo por km como se fosse o preço. Custo é o chão. Preço é o chão mais tudo o que a viagem consome além dos quilômetros — e mais o que a empresa precisa ganhar pra continuar existindo.

Vamos montar o preço de uma viagem real, passo a passo.

O cenário: carga seca, São Paulo (SP) até Goiânia (GO), 930 km. Truck 6x2 com custo de R$ 4,40 por km. Carga e descarga com agendamento, sem garantia de retorno.

Saber como formar preço de frete sem depender de sensação é montar a viagem em camadas, uma de cada vez.

1. O ciclo, não o trecho

O caminhão sai de São Paulo e precisa voltar. Se não houver carga de retorno, o ciclo é 1.860 km, não 930.

1.860 km × R$ 4,40 = R$ 8.184 de custo de deslocamento

Se você conseguir vender o retorno por R$ 3.500, esse valor abate o ciclo e a viagem de ida fica bem mais competitiva. Por isso operação que trabalha rota fixa consegue preço melhor: ela vende os dois lados.

2. Os custos da rota

Entram aqui os itens que não são do caminhão, mas daquele caminho:

  • Pedágio: R$ 520 (ida e volta)
  • Diárias e alimentação do motorista (3 dias): R$ 330
  • Taxa de descarga / chapa no destino: R$ 250

Subtotal: R$ 1.100

Esses valores são discriminados no orçamento, sempre. Cliente entende pedágio; não entende preço redondo sem explicação.

3. O tempo parado

Aqui mora o dinheiro que a transportadora mais perde sem perceber. Se o caminhão fica 8 horas em fila de descarga, esse é tempo em que ele não gera receita e continua consumindo custo fixo.

Uma forma simples de tratar: divida o custo fixo mensal pelas horas úteis do mês. R$ 9.900 ÷ 200 horas ≈ R$ 50 por hora de caminhão parado. Um dia inteiro de espera custa R$ 400.

Você pode embutir no preço ou negociar como estadia depois da terceira hora. Negociar é melhor: cria incentivo pro cliente agilizar.

4. O risco da carga

Carga de valor agregado alto muda o seguro, a rota e o gerenciamento de risco. Eletrônicos, medicamentos e cigarro pedem escolta, isca, rota homologada. Isso tem preço, e precisa estar no orçamento como linha própria — inclusive porque é o item que o cliente mais tenta cortar.

5. A margem

Aqui é onde a maioria trava. A margem não é "o que sobra": é o que paga o crescimento da empresa, o capital de giro, o caminhão que vai parar sem aviso e o lucro do dono.

Pra transporte rodoviário de carga, trabalhar com 15% a 25% sobre o custo total é o ponto em que a operação se sustenta e ainda tem fôlego pra investir. Abaixo de 10%, qualquer imprevisto vira prejuízo.

Fechando a conta

ComponenteValor
Deslocamento (1.860 km × R$ 4,40)R$ 8.184
Pedágio, diárias e taxasR$ 1.100
Tempo parado previsto (1 dia)R$ 400
Custo total da viagemR$ 9.684
Margem de 20%R$ 1.937
Preço do freteR$ 11.621

Com retorno vendido a R$ 3.500, o mesmo trabalho pode ser oferecido por cerca de R$ 8.400 na ida e continuar dando o mesmo resultado. É essa diferença que separa quem briga por preço de quem organiza rota.

Quando o cliente diz que está caro

Três respostas que funcionam melhor do que baixar o preço na hora:

Mostre a composição. Abrir pedágio, diária e quilometragem tira a conversa do "seu preço" e leva pro "nosso custo".

Ofereça troca, não desconto. Janela de carregamento mais cedo, descarga em 2 horas, carga de retorno garantida. Tudo isso vale dinheiro real e você pode devolver parte em preço.

Saiba a que preço você sai. Se o cliente quer R$ 8.500 sem retorno, você sabe que isso é R$ 1.184 abaixo do custo. Dizer não a esse frete não é perder cliente: é não pagar pra trabalhar. E só dá pra dizer isso com convicção se o custo por km estiver calculado de verdade.

Piso mínimo: o que ele é e o que não é

A tabela de pisos mínimos da ANTT define valores por eixo carregado e tipo de carga, atualizados periodicamente. Ela dá respaldo legal em negociação e é obrigatória em várias situações de contratação.

Só que piso é piso. Na prática, o piso costuma cobrir custo de deslocamento e pouco mais — não considera a sua estrutura, seu tempo parado ou sua margem. Usar o piso como preço-alvo é aceitar operar no limite.

Como manter isso vivo

Preço de frete não é calculado uma vez. O diesel muda, o pedágio reajusta, o salário tem data-base. A tabela precisa ser revisada pelo menos a cada trimestre — e imediatamente quando o diesel se mexer mais de 5%.

No Rodus, cada ordem de serviço guarda os quilômetros rodados, os custos da viagem e o valor cobrado, então a margem real por frete, por rota e por cliente aparece no relatório. É comum o gestor descobrir ali que o cliente que mais dá volume é justamente o de pior margem — e que dois ou três fretes por semana estão saindo abaixo do custo há meses.

Perguntas frequentes

Como calcular o valor de um frete?
Multiplique o custo por km pela distância do ciclo completo (ida e volta), some os custos da rota (pedágio, diárias, taxas), some o custo do tempo parado em carga e descarga e aplique a margem desejada. O piso mínimo da ANTT serve como referência legal, não como preço-alvo.
O piso mínimo da ANTT obriga o embarcador?
A Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas vale para o frete contratado de transportador autônomo, cooperativa e empresa, por eixo carregado e tipo de carga. Ele é um mínimo legal: na prática, a maioria das operações precisa cobrar acima dele pra dar resultado.
Devo cobrar retorno vazio?
O custo do retorno existe, alguém paga. O ideal é vender a volta como outro frete; enquanto não vende, ele precisa estar no preço da ida. Fingir que o retorno é grátis é o caminho mais rápido pro prejuízo.

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