A pergunta chega sempre do mesmo jeito: "quanto custa o meu caminhão pra rodar um quilômetro?". E a resposta que a maioria dá é um número redondo que alguém falou numa roda de conversa em posto. R$ 3,00. R$ 4,50. Cada um tem o seu.
O problema de trabalhar com número de ouvido é que ele só aparece no fim do ano, quando o contador mostra que a empresa faturou bem e não sobrou nada. Custo por km não é estatística de mercado: é a conta da sua frota, com o seu diesel, o seu motorista e o seu caminhão.
Os dois blocos da conta
Todo custo de frota cai num de dois baldes.
Custo fixo é o que sai do caixa mesmo com o caminhão parado no pátio o mês inteiro. Depreciação, parcela do financiamento, IPVA, licenciamento, seguro, salário e encargos do motorista, rastreador, RNTRC, contador, aluguel do pátio.
Custo variável só existe quando a roda gira: diesel, arla, pneu, óleo, filtro, manutenção, lavagem.
A confusão começa quando alguém joga tudo numa conta só e divide pelo faturamento. Aí o número muda todo mês sem motivo, porque num mês o caminhão rodou 6.000 km e no outro 11.000.
Levantando o custo fixo
Pegue o extrato dos últimos doze meses e distribua por veículo. Um truck 6x2 numa operação de carga seca, por exemplo:
| Item | Por mês |
|---|---|
| Depreciação (R$ 420 mil, 8 anos, residual 40%) | R$ 2.625 |
| Seguro (casco + RCTR-C) | R$ 1.100 |
| IPVA, licenciamento e taxas | R$ 500 |
| Motorista com encargos e benefícios | R$ 5.200 |
| Rastreador e telemetria | R$ 180 |
| Rateio de RNTRC, contador e administrativo | R$ 300 |
| Total fixo | R$ 9.905 |
Duas observações que mudam bastante esse quadro.
A primeira é a depreciação. Muita gente ignora porque "não sai dinheiro do bolso". Sai sim, só que de uma vez, daqui a oito anos, na hora de trocar o caminhão. Quem não guarda a depreciação todo mês financia o próximo caminhão inteiro no banco.
A segunda: se o veículo está financiado, a parcela não substitui a depreciação. A parcela é pagamento de dívida, a depreciação é desgaste do bem. Pra não contar duas vezes, o jeito mais simples é lançar só os juros da parcela como custo e tratar a amortização como caixa.
Levantando o custo variável
Aqui a única fonte confiável é o histórico. Nada de tabela de fabricante.
- Diesel: divida os litros abastecidos pelos km rodados no período. Suponha 2,6 km/l com diesel a R$ 6,30 — dá R$ 2,42 por km.
- Arla 32: costuma ficar entre 4% e 6% do volume de diesel. Com arla a R$ 3,50, são uns R$ 0,07 por km.
- Pneus: some o que o jogo custa e divida pela vida útil real, já contando a recapagem. Dez pneus a R$ 2.600, rodando 120 mil km e mais 80 mil depois de uma recapagem de R$ 900, dão cerca de R$ 0,18 por km.
- Manutenção e lubrificantes: some as notas de oficina e peças dos últimos doze meses e divida pelos km do período. Numa frota organizada isso fica entre R$ 0,35 e R$ 0,60 por km, dependendo da idade.
No exemplo: 2,42 + 0,07 + 0,18 + 0,45 = R$ 3,12 por km.
Fechando o número
Com 8.000 km rodados no mês:
Custo fixo por km = 9.905 ÷ 8.000 = R$ 1,24 Custo total por km = 1,24 + 3,12 = R$ 4,36
Repare no que acontece se esse mesmo caminhão rodar 5.000 km: o fixo por km sobe pra R$ 1,98 e o custo total vai pra R$ 5,10. O caminhão não ficou mais caro. Ele ficou mais ocioso. É por isso que km rodado por veículo é um número que anda sempre colado no custo por km.
Os três erros que estragam o resultado
Jogar pedágio na conta. Pedágio, balsa, escolta e taxa de descarga são custos da rota. Entram no preço do frete daquela viagem, não no custo do veículo. Quem mistura vê o custo por km subir quando a rota muda de praça, sem nada ter acontecido com o caminhão.
Usar a média da frota pra tudo. A média é boa pra conversar com o banco. Pra decidir, é péssima: ela dilui o caminhão de 2014 que engoliu R$ 38 mil de oficina no ano dentro do resultado dos outros quatro. Veja o custo de manutenção veículo a veículo antes de decidir qualquer troca.
Esquecer o retorno vazio. Se a viagem tem 600 km de ida com carga e 600 de volta vazio, o custo é de 1.200 km — R$ 5.232 no nosso exemplo. O frete que você cobra precisa cobrir os dois trechos. Parece óbvio, mas é o motivo número um de frete fechado no prejuízo.
Onde esse número é usado
Calculado, o custo por km vira ferramenta de três decisões:
- Preço de frete. É o piso. Abaixo dele, você está pagando pra trabalhar. Esse é o assunto de como formar o preço do frete.
- Troca de veículo. Quando o custo por km de um caminhão passa consistentemente o da frota em 25% ou 30%, a conta da troca começa a fechar.
- Negociação com embarcador. Chegar numa reunião com a planilha do custo real muda o tom da conversa. Quem mostra número negocia; quem fala "tá apertado" leva desconto.
Pra não virar planilha esquecida
O cálculo não é difícil. O que cansa é manter: cada abastecimento, cada nota de oficina, cada pneu, cada km de odômetro, mês após mês, caminhão a caminhão. É aí que a planilha morre — normalmente em março.
No Rodus, esses lançamentos já acontecem na rotina: o abastecimento é registrado com odômetro e litros, a manutenção sai da ordem de serviço da oficina, o pneu tem ficha própria com a quilometragem que rodou. O custo por km aparece pronto no relatório, por veículo e por mês, porque ele é só a consequência do que já foi lançado — e não uma planilha à parte pra alguém preencher no fim de semana.
