"Comprei o caminhão à vista, então ele não me custa nada" — essa frase aparece em quase toda conversa com transportadora que está começando. E é a origem de metade dos problemas de caixa que aparecem no terceiro ano.
Caminhão parado custa. Caminhão rodando custa mais. A questão é saber quanto, item por item, pra decidir preço de frete, troca de veículo e até se vale a pena comprar mais um.
Custo fixo: o que sai com o caminhão no pátio
Depreciação
O maior custo invisível. Um truck 6x2 novo em torno de R$ 420 mil, trocado em oito anos por 40% do valor, perde R$ 252 mil no período. São R$ 2.625 por mês que você precisa guardar — ou vai financiar o próximo caminhão inteiro.
Caminhão usado deprecia menos em valor absoluto, mas come mais em manutenção. Uma coisa compensa a outra só até certo ponto: passando de uns doze anos, a manutenção normalmente ganha a corrida.
Financiamento
Se tem parcela, separe juros de amortização. Os juros são custo. A amortização é caixa, e já está representada na depreciação. Contar parcela cheia e depreciação é o erro que faz a conta parecer impossível.
Seguro
Casco, RCTR-C e RCF-DC. Varia muito com a carga, a região e o histórico. Numa operação de carga seca no Sudeste, algo entre R$ 900 e R$ 1.400 por mês para o conjunto.
Impostos e taxas
IPVA, licenciamento, taxas do DETRAN e seguro obrigatório: some o ano e divida por doze. Uns R$ 500 mensais para um truck. Vale montar o calendário anual de documentos do veículo pra nenhuma dessas datas pegar a empresa de surpresa.
Motorista
Salário, encargos, FGTS, provisão de férias e 13º, vale-refeição, seguro de vida da convenção. Um motorista carreteiro custa à empresa entre 1,7 e 2 vezes o salário de carteira. Com R$ 2.900 de salário-base e as verbas variáveis, é comum fechar em R$ 5.000 a R$ 5.600 por mês.
Estrutura
Rastreador (R$ 120 a R$ 250), rateio de RNTRC, contador, sistema, pátio, telefone. Num truck: uns R$ 400.
Fixo total do truck: em torno de R$ 9.900 por mês.
Custo variável: o que sai quando a roda gira
Com 8.000 km rodados num mês:
| Item | Por km | No mês |
|---|---|---|
| Diesel (2,6 km/l a R$ 6,30) | R$ 2,42 | R$ 19.360 |
| Arla 32 | R$ 0,07 | R$ 560 |
| Pneus (10, com recapagem) | R$ 0,18 | R$ 1.440 |
| Manutenção e lubrificantes | R$ 0,45 | R$ 3.600 |
| Lavagem e despesas de viagem | R$ 0,05 | R$ 400 |
| Total | R$ 3,17 | R$ 25.360 |
A conta fechada
Truck 6x2 rodando 8.000 km/mês: R$ 35.260 por mês, ou R$ 4,41 por km.
Pra um cavalo mecânico 6x2 com carreta de três eixos rodando 12.000 km, a lógica é a mesma, com pesos diferentes: o conjunto custa mais caro (uns R$ 700 mil), o consumo cai pra 2,1 km/l, os pneus viram 22, e o total costuma ficar entre R$ 58 mil e R$ 66 mil por mês — algo como R$ 5,00 por km.
O que mexe mais nesse número
Quilometragem. Rodar 12.000 km em vez de 8.000 não aumenta o custo fixo, só dilui. No truck do exemplo, o fixo cai de R$ 1,24 pra R$ 0,83 por km. Cada quilômetro a mais de caminhão ocioso é margem que evapora — a conta está em quanto custa um caminhão parado.
Consumo. Cada 0,1 km/l a mais economiza cerca de R$ 700 por mês nesse perfil. É por isso que direção econômica e calibragem pagam tão rápido.
Idade. Manutenção de R$ 0,45 por km é de caminhão com até seis, sete anos e plano preventivo em dia. Passando disso, R$ 0,80 aparece com facilidade — e sem aviso, porque chega em forma de guincho.
Caminhão usado muda a conta, não a lógica
Comprar seminovo troca depreciação por manutenção, e o ponto de equilíbrio depende de quanto se paga a mais em oficina.
Um exemplo lado a lado, com a mesma operação de 8.000 km/mês:
| Novo (R$ 420 mil) | Seminovo 5 anos (R$ 250 mil) | |
|---|---|---|
| Depreciação/mês | R$ 2.625 | R$ 1.740 |
| Manutenção/km | R$ 0,35 | R$ 0,60 |
| Manutenção/mês | R$ 2.800 | R$ 4.800 |
| Consumo | 2,7 km/l | 2,5 km/l |
| Diesel/mês | R$ 18.667 | R$ 20.160 |
| Diferença mensal | — | + R$ 608 |
Mesmo com R$ 170 mil a menos de investimento, a operação do seminovo sai mais cara no mês nesse cenário. O que decide a favor dele é o capital: R$ 170 mil que não saíram do caixa valem muito para quem está crescendo.
Ou seja: caminhão novo costuma vencer no custo operacional; caminhão usado vence no custo de oportunidade do capital. As duas contas precisam estar na mesa.
O que a conta não pega
Dois fatores que mudam a decisão e não cabem na planilha: disponibilidade (veículo velho quebra mais, e cada dia parado custa R$ 450) e imagem perante certos embarcadores, que restringem idade de frota em contrato. Vale confirmar essa restrição antes de comprar — descobrir depois é caro.
Antes de comprar mais um
Três perguntas resolvem a decisão melhor do que qualquer sensação:
- Tenho carga constante pra esse caminhão? Abaixo de 7.000 km por mês, o fixo mata a conta.
- Meu frete médio cobre o custo por km com folga de pelo menos 20%? Se não cobre com quatro caminhões, não vai cobrir com cinco.
- Consigo bancar dois meses de fixo com o caminhão parado? Porque vai acontecer: revisão, motorista doente, cliente que atrasou a carga.
Quem responde essas três com número na mão, e não de cabeça, erra bem menos. E manter esses números atualizados é o trabalho que o Rodus faz junto da operação: cada abastecimento, nota de oficina e pneu trocado vai alimentando o custo real de cada veículo, sem ninguém precisar montar planilha nenhuma no fim do mês.
