Pneu é o terceiro maior custo de uma frota rodoviária, atrás de diesel e mão de obra. E é, disparado, o menos controlado.
A prova é simples: pergunte a uma transportadora qual marca de pneu rende mais na operação dela. A resposta quase sempre é uma opinião — "a gente gosta da X", "a Y é boa mas cara". Opinião, não número.
O número existe, e ele costuma mostrar diferenças de 20% a 30% entre marcas na mesma operação.
Controle de pneus de frota não começa em planilha. Começa numa marcação no flanco do pneu.
A base de tudo: identificar o pneu
Sem identificação individual, não existe controle de pneu. Ponto.
O padrão do setor é o número de fogo: uma numeração própria da frota, gravada a quente ou marcada no flanco, que acompanha aquele pneu específico da compra até o descarte — inclusive através de recapagens e mudanças de eixo.
Sem ele, o pneu vira anônimo na primeira troca de posição, e todo o histórico se perde.
A ficha do pneu
Cada pneu precisa de uma ficha com:
- Número de fogo
- Marca, modelo, medida (ex.: 295/80 R22.5)
- Data de compra, fornecedor, valor
- Histórico de posições: veículo, posição (1ºE, 1ºD, 2ºEE, 2ºEI...), km de entrada e de saída
- Sulco medido, em milímetros, com data
- Recapagens: data, recapadora, valor, tipo de banda
- Destino final: descarte, venda, sinistro, roubo
Parece muito. São seis campos no ato da compra e dois a cada movimentação.
O que a ficha entrega
1. CPK por marca
O objetivo principal. Custo por quilômetro de cada pneu, agrupado por marca e modelo, na sua operação — que é diferente da operação do vizinho. A fórmula está em CPK de pneu.
2. Diagnóstico de desgaste irregular
Quando um pneu sai de posição com desgaste em um ombro só, o problema não é o pneu: é alinhamento, suspensão ou calibragem. Se o padrão se repete na mesma posição de um veículo específico, a causa está naquele caminhão.
3. Controle de recapagem
Quantas vidas cada carcaça deu, qual recapadora entregou mais quilometragem, quantas carcaças foram perdidas por rodar vazia ou por dano lateral.
4. Rastreamento
Pneu é item que some. Ficha com posição e veículo é o controle mais eficaz que existe — e o mais desconfortável de implantar, justamente por isso.
Posições e rodízio
Cada posição tem uma função e um desgaste típico:
- Dianteiro (direcional): desgasta pelos ombros, sofre com alinhamento e calibragem baixa. Costuma ser o pneu mais novo e de melhor qualidade.
- Tração: desgasta pelo centro, sofre com aceleração brusca e sobrepeso.
- Arrasto / reboque: desgaste mais uniforme, é onde entra bem o pneu recapado.
O rodízio a cada 20 a 30 mil km equaliza o desgaste, mas só funciona se a causa do desgaste irregular for corrigida. Rodízio sem alinhamento é trocar o pneu de lugar pra estragar o próximo.
A sequência de vida que maximiza o rendimento
O arranjo mais comum em frota organizada:
- Pneu novo entra na direção ou na tração, dependendo da política
- Ao chegar no limite de sulco, vai para recapagem
- Volta recapado para tração ou arrasto
- Segunda recapagem, quando a carcaça permite, vai para arrasto
- Descarte com registro e destinação ambientalmente correta
Cada etapa registrada é uma linha na ficha. No fim, você sabe exatamente quantos quilômetros aquela carcaça entregou e a que custo.
Como começar amanhã
Não precisa numerar a frota inteira num dia:
Passo 1. Numere os pneus de dois veículos, com os dados atuais estimados (marca, posição, sulco medido hoje).
Passo 2. A partir de agora, todo pneu novo que entra na frota já entra numerado e fichado.
Passo 3. Toda vez que um veículo passa por borracharia, numere o que ainda não tem número.
Em seis meses a frota inteira está identificada, sem parar nada. E os primeiros comparativos de CPK já aparecem antes disso.
O erro de comparar preço
A compra de pneu quase sempre é decidida no preço da unidade. É a decisão errada com o dado errado.
Um pneu de R$ 2.900 que roda 140 mil km custa R$ 0,0207 por km. Um de R$ 2.400 que roda 100 mil custa R$ 0,024. O mais barato é 16% mais caro na conta que importa — e, multiplicado por 10 pneus e por vários ciclos, isso vira dezenas de milhares de reais por ano.
Quem registra é a borracharia
O ponto de falha de todo controle de pneu é o mesmo: o registro precisa acontecer no momento da movimentação, com as mãos sujas, e não depois, de memória.
Três providências que fazem a diferença:
Formulário curto na borracharia. Número de fogo, veículo, posição, odômetro, sulco. Cinco campos.
Foto do número de fogo. Resolve a dúvida de leitura e vira comprovante.
Conferência semanal por quem gere. Movimentações da semana contra o que foi registrado. Nas primeiras semanas vai faltar coisa; depois vira hábito.
Quando o serviço é feito em borracharia externa, o combinado precisa estar na contratação: sem a ficha preenchida, o serviço não é aceito. Parece rígido e é o que sustenta o controle.
O que fazer no primeiro trimestre
Com três meses de registro, três leituras já rendem decisão:
Pneus retirados antes do esperado — e o motivo. Se muitos saem por dano lateral, o problema é de manobra ou de via; se saem por desgaste irregular, é alinhamento e pressão.
Carcaças reprovadas na recapagem, por posição e por veículo. Concentração num veículo aponta problema mecânico dele.
Diferença de quilometragem entre marcas, mesmo sem CPK fechado. A tendência aparece antes do número definitivo.
No Rodus, o pneu tem ficha própria com número de fogo, posição no veículo, quilometragem acumulada, recapagens e custo por km calculado automaticamente, com ranking por marca. A partir do segundo ciclo de troca, a decisão de compra deixa de ser opinião.
