Quando a frota decide trocar de marca de pneu, o critério costuma ser o preço da unidade ou a experiência do borracheiro. Os dois são ruins pelo mesmo motivo: ignoram quanto o pneu rodou.
CPK — custo por quilômetro — resolve isso. É a única métrica que responde a pergunta certa: quanto me custa cada quilômetro rodado com esse pneu?
A fórmula
CPK = (valor do pneu novo + soma das recapagens − valor residual da carcaça) ÷ km total rodado
Três parcelas no numerador, uma no denominador, e é no denominador que mora o erro.
O erro da segunda linha
O cálculo que a maioria faz:
Pneu de R$ 2.600 que rodou 120.000 km = R$ 0,0217 por km
Está errado, porque aquele pneu não morreu aos 120 mil km. Ele foi recapado e rodou mais 80 mil. A vida dele foram 200 mil km, e o custo dela inclui a recapagem:
(2.600 + 900 − 0) ÷ 200.000 = R$ 0,0175 por km
Vinte por cento de diferença — e, o que é pior, o erro penaliza justamente o pneu de carcaça boa, que é o que aceita mais recapagens. Frota que calcula errado acaba comprando o pneu de carcaça ruim porque ele "parece" melhor.
Exemplo comparando duas marcas
Mesma operação, mesma posição (tração), mesmo período:
| Marca A | Marca B | |
|---|---|---|
| Preço do pneu novo | R$ 2.900 | R$ 2.400 |
| 1ª vida | 128.000 km | 104.000 km |
| Recapagem | R$ 950 | R$ 900 |
| 2ª vida | 86.000 km | 62.000 km |
| 2ª recapagem | R$ 950 | não aceitou |
| 3ª vida | 71.000 km | — |
| Valor da carcaça no fim | R$ 120 | R$ 80 |
| Km total | 285.000 | 166.000 |
| Custo total | R$ 4.680 | R$ 3.220 |
| CPK | R$ 0,0164 | R$ 0,0194 |
A marca B é R$ 500 mais barata na compra e 18% mais cara por quilômetro. Numa frota de dez caminhões com 10 pneus cada, rodando 100 mil km por ano, essa diferença passa de R$ 30 mil por ano.
E olha que nem entrou na conta o custo das paradas extras pra troca.
Os detalhes que mudam o resultado
Valor residual da carcaça. Carcaça sucateada vale pouco, mas vale. Se você vende, subtraia. Se joga fora, zere — mas registre, porque o número total de carcaças perdidas por dano lateral é um indicador de operação por si só.
Pneu perdido por sinistro ou roubo. Não entra no CPK de desempenho. Vira outra linha de custo. Misturar distorce a comparação entre marcas.
Posição. Comparar CPK de direcional com CPK de arrasto não faz sentido: são desgastes diferentes. Compare sempre dentro da mesma posição.
Operação. Pneu que roda serra desgasta diferente de pneu de pista plana. Se a frota tem rotas muito diferentes, separe os grupos.
Quando começar a confiar no número
CPK precisa de vida completa pra ser exato. Isso leva de um a três anos, dependendo da quilometragem.
Mas dá pra tomar decisão antes, usando o CPK parcial da primeira vida: mesmo sem as recapagens, a comparação entre marcas na mesma posição já mostra tendência em seis a oito meses. Só não use esse parcial pra comparar marca de carcaça reconhecidamente boa com marca de carcaça fraca — aí você repete o erro da segunda linha.
Como isso vira política de compra
Com dois ou três ciclos medidos, a frota consegue escrever uma regra própria:
- Marca X na direção, porque rende mais em pista e o desgaste é mais uniforme
- Marca Y na tração, onde o CPK dela ganha
- Recapado na terceira posição e no reboque
- Carcaça só de fornecedor cuja segunda vida provou-se acima de tal quilometragem
Isso é gestão de pneu. O resto é achismo caro.
O trabalho de manter
Nada disso funciona sem ficha por pneu com número de fogo. O CPK é só a leitura final de um registro que precisa acontecer na borracharia, a cada movimentação.
O CPK como ferramenta de negociação
Depois de dois ciclos medidos, o CPK deixa de ser controle interno e vira argumento comercial.
Chegar numa negociação com fornecedor mostrando que a marca dele entregou 128 mil km na primeira vida contra 104 mil da concorrente, na mesma frota, na mesma posição e no mesmo período, muda completamente o tom da conversa. Fornecedor sério quer esse dado — inclusive porque ele raramente consegue medir desempenho real em operação de cliente.
Duas coisas costumam aparecer nessa mesa:
Condição melhor para quem mede, porque o fornecedor sabe que está sendo comparado com número e não com opinião.
Suporte técnico de verdade. Análise de carcaça, recomendação de pressão para a sua carga por eixo, acompanhamento de desgaste. Isso vale mais que desconto.
Quando o CPK engana
Três armadilhas conhecidas:
Amostra pequena. Dois pneus de uma marca não decidem nada. Espere pelo menos seis ou oito de cada, na mesma posição.
Período diferente. Comparar pneus que rodaram no inverno com pneus que rodaram na safra, em estradas diferentes, produz diferença que não é do pneu.
Carcaça perdida por sinistro. Pneu furado por prego não é defeito de marca. Ele sai da comparação de desempenho e entra em outra linha de custo — senão a marca azarada parece pior do que é.
No Rodus, cada pneu tem ficha própria e o CPK é calculado sozinho conforme a quilometragem é acumulada nas posições, incluindo recapagens e valor de carcaça. O ranking por marca e por modelo sai pronto — e costuma render, no primeiro ano, mais economia que qualquer negociação de preço com fornecedor.
